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sábado, 7 de maio de 2016

E QUANDO NÃO SE TEM MAIS A BLUSA DE LACINHO?


              Eu sempre soube que as palavras poderiam promover guerra ou paz. O que eu não tinha me dado conta ainda, era que minhas palavras pudessem sentimentalmente falando, acorrentar alguém. Afirmo isso assim com essa convicção porque foi dessa maneira que certa vez definiram meus escritos. O meu namoro com o homem do conto da blusa de lacinho acabou por causa da distância. Esse foi o único motivo. O respeito sempre se fez presente na relação, assim como a sinceridade.
            Tanto eu quanto ele, mesmo depois do término, continuamos por dentro de tudo que acontece na vida um do outro, até hoje. Passamos a ser confidentes. Ele arrumou outra namorada, eu também entrei noutro relacionamento, mas mesmo assim, conseguimos nutrir essa relação de amizade. Ele continua morando longe de mim, mas tem uma casa na minha terrinha, então quando resolve aparecer me telefona antes. Sempre foi assim. O inacreditável é que o danado me respeita até mesmo quando eu estou com outra pessoa. Não avança sinais. Esse é mais um ponto que temos em comum: Não nos dividimos. Por esta razão, acredito que fica explicado o grau elevado de intensidade empregado em nossos reencontros.
            Ele sempre soube que escrever é uma das minhas maiores paixões e também sempre demonstrou gostar de ganhar meus escritos. Se eu demorasse para escrevê-lo, me cobrava, em tom autoritário. Me prevalecendo disso, criei o hábito de descrever minuciosamente os nossos encontros e enviava para ele, como uma espécie de "diário a dois". Essa foi uma solução que encontrei para amenizar a distância que sempre estava entre nós. Um dia, eu estava em seus braços, no outro, ele tinha meu texto diante dos olhos como recordação do que passamos no nosso ontem. Segundo ele, os meus textos continuam sendo indispensáveis. Com o fim da nossa relação, o diário deixou de ganhar novos “capítulos”. Até um certo dia...
            O quarteto amigo passou a ser amigo dele também e vez por outra tentava fazer uma reconciliação nossa. Isso passou a ser cada vez mais constante, até que eu fiquei novamente solteira e em um dos meus domingos solitários, sem nada para fazer em casa, resolvi escrever mais uma vez sobre a nossa história (o que seria posteriormente intitulado por: A infalível chantagem da blusa de lacinho). Com o conto pronto, julguei que tinha escrito o último capítulo do nosso diário a dois.
Certa vez, eu estava colocando minha estante em ordem, quando uma amiga chegou aqui em casa. Animada com a quantidade de livros, ela começou a me ajudar na arrumação. Ao encontrar um grosso diário, não conseguiu disfarçar a curiosidade e perguntou:
-Um diário sem cadeado? Nunca vi! Conta fatos da sua vida?
-E como conta! Mas não é só meu. É um diário a dois, por esta razão não tem cadeado.
-Diário a dois? Que interessante! Isso aguça a curiosidade de qualquer um, sabia?
-Sabia. A minha vida, por mais insignificante que seja, desperta a curiosidade dos outros. Mas não é qualquer um que tem acesso à minha estante, o diário está protegido dos olhos alheios...
-Então já que eu estou tendo acesso à sua estante, será que eu posso lê-lo?
-Eu deixo você ler qualquer livro, menos este. Como já disse, é um diário a dois e você está pedindo permissão somente a mim. Você deve receber autorização de ambas as partes para manuseá-lo.
-Então me fala quem é ele, quem é o outro escritor? Poderei pedir a permissão dele...
Dei um sorriso enigmático, afinal, a curiosa criatura em questão, é uma das integrantes do tão falado “quarteto amigo”, e conhecia muito bem quem tinha participação naquele diário comigo. Ao revelar o nome do “santo”, ela ficou toda animada:
-Ele já leu isto?
         -Quase tudo. Na verdade, este diário “a dois”, contraditoriamente, é escrito apenas por mim, é nada mais nada menos que o rascunho dos e-mails que sempre enviei pra ele. A única coisa que ele não leu foi o último capítulo.
            -Por quê?
            -Porque quando escrevi nossa relação já tinha acabado e ele estava namorando outra moça, resolvi deixá-lo quieto!
            -Será que ele ainda está namorando?
            -Não faço ideia, a última vez que nos falamos foi no meu aniversário quando ele me ligou. Naquele tempo, estava num relacionamento sério.
            -Ele sabe que você está solteira?
            -Acho que não.
            -Vou ligar para ele!
          Esta amiga cumpriu sua palavra. Nesse telefonema, ela matou todas as suas curiosidades e revelou tudo pra ele. Disse que tinha descoberto o nosso diário, confessou estar muito curiosa para lê-lo e que eu tinha escrito um “capítulo final” na nossa história. Não segurou a língua e continuou: “Ela está solteira!”. Ele não se conteve e ordenou:
            -Passe o telefone para ela, agora!
            O tom de voz sugeria ser uma bronca. Dispensando o habitual “minha linda”, me disse com muita autoridade:
            -Como é que você escreve mais um capítulo no nosso diário e eu só fico sabendo disso por terceiros?
            -Mas eu escrevi quando terminamos o namoro e você estava namorando outra pessoa, não achei conveniente enviar essas palavras para você.
            -Pois fique sabendo que eu estou solteiro e exijo que você me envie o quanto antes!
            -Tudo bem, eu enviarei. Só não posso fazer isso com tanta urgência porque o conto é grande, tenho que digitá-lo, e não estou com este tempo todo nesse exato momento. Mas prometo que você vai recebê-lo.
            -Outra coisa, que negócio é esse de “capítulo final”? Por que você colocou um fim na nossa história?
            -Coloquei um fim porque você estava em outra relação.
            -Vou resolver a questão desse intruso ponto final, me aguarde!
            A nossa palavra sempre foi cumprida, tanta veracidade de ambas as partes, sempre causou medo. O dito era sempre feito.
            Nessa mesma semana, saí de casa e fui resolver algumas coisas na rua. Me surpreendi ao vê-lo na minha terrinha. Ele estava em seu carro, com os olhos mais espiões que já vi na vida. Pensei: “Dessa vez ele veio sem me avisar, as coisas não estão boas para o meu lado! Será que ele veio disposto a apagar o ponto final do conto?”. Me questionava a cada segundo... Ele passou quase batendo em mim e não me viu. Deixei que passasse, sem ser notada mesmo, afinal, se ele tinha se deslocado da cidade dele para a minha, com o propósito de me ver, ele obviamente daria um jeito de falar comigo e eu não precisava me jogar desesperadamente na frente do carro dele. Isso era uma questão lógica.
            Porém, alguns detalhes impossibilitavam nosso reencontro: eu havia mudado de casa e também o número do telefone. Ele não sabia disso. Então, uma coisa era certa: Ele me procuraria pelas redes sociais. Eu não estava enganada. Quando cheguei em casa e liguei o computador, ele estava online e já tinha deixado a seguinte mensagem:
            -Cadê você? Estou por aqui, tentei te ligar, teu celular não pega, tua casa está fechada. Me ligue com urgência! Meu número continua o mesmo.
            Ativei o bate-papo:
            -Eu sei que você está por aqui!
            -????????? (A resposta dele foi este monte de interrogações mesmo!)
            -Eu te vi hoje.
            -Aonde?
            -Você passou quase batendo em mim e não me viu. Outra coisa, a casa fechada não é mais a minha porque me mudei e o telefone desligado também não é mais meu, anote o novo...
            Imediatamente me ligou:
            -Está provado que você me enfeitiçou! Eu vim para cá com o propósito de te encontrar, te procurei incansavelmente e você acaba de me falar que eu passei quase batendo em você e não te vi...
            -Eu te vi mesmo! Tenho como te provar que estou falando sério. Posso falar sem medo de errar a cor da camisa que você estava usando, o nome da rua e a hora que você quase me atropelou...
            -O que você está fazendo agora? Vou te buscar!
            - Agora eu não posso!
            -Por que não pode?
            Dei meus motivos, mas ele não pareceu muito conformado:
            -Eu preciso ver você e ler este texto sobre mim que você ocultou.
  -Você só poderá me ver na segunda-feira.
            -Mas eu tenho que voltar para casa no domingo!
            -Bem, é uma pena! Não estou te dando desculpas, já mostrei meus motivos reais. Espere até segunda que você não vai se arrepender, te garanto! 
            -Mas eu quero você antes de segunda.
            -Finalmente: Você quer o texto ou quer a mim?
            -Quero os dois!
            -Eu já vi este filme... Antes essa sua possessividade toda, era para ter a mim e a blusa de lacinho, agora quer ter o texto também?
            -Claro! Se o texto fala sobre mim e se foi escrito em nosso diário, me pertence também.
            -Não tiro sua razão, mas a blusa de lacinho foi comprada por mim, você me tomou e ela passou a ser somente sua. Acredito até que depois de tanto tempo ela já deve ter tido o lixo como fim.
            -Nunca duvide de mim!
            -Quer me dizer que mesmo tendo namorando outras mulheres, essa blusa ainda existe?
            -Agora eu sou obrigado a usar suas palavras como argumento: Não aposte porque eu ganho!
            Ainda com um tom de raiva na voz, me perguntou:
            -Segunda que horas?
            -Desistiu de viajar no domingo?
            -Claro! Preciso ver você!
            Mesmo com tanta insistência, não conseguia acreditar que ele estivesse me desejando porque demonstrou por todo o tempo estar com muita raiva. Quando a tão falada segunda-feira chegou, liguei pra ele:
-A pergunta que não cala: Ainda estás na minha terrinha ou me deixaste na mão?
-Estou aqui! Que horas posso te buscar?
-Pode vir agora.
Ele veio, eu entrei no carro e tive até medo da sua expressão. Ele estava muito sério. Ficou calado o tempo todo. Ao chegar a casa dele, fui beijada violentamente. Fiquei sem entender nada, mas retribuí o beijo. Depois, ao som de Engenheiros do Hawaii (Refrão de bolero), ele falou seriamente:
-Escute essa música, não consigo escutá-la sem lembrar de você, especialmente nesse trecho: “Seus lábios são labirintos/ que atraem os meus instintos mais sacanas...”.
Nesse momento, me sorriu com o seu “marcante sorriso cúmplice” sempre tão utilizado nos momentos mais impróprios, com o intuito de me desequilibrar mesmo. E o pior que ele sempre me vence nesse aspecto. Perturbada com a situação, questionei:
-Se queria me dar esse beijo de uma maneira tão intensa, por qual razão me tratou tão secamente?
-Guarde o papo para depois! Tire sua roupa, agora!
-Hãããããã? Agora eu acredito que você enlouqueceu de verdade! O que queres com tanta raiva? Cadê o teu habitual romantismo?
-Quero que tire essa roupa comportada, vá até meu quarto, e vista o que está em cima da minha cama!
Eu comecei a ficar com raiva de tanta autoridade, mas fui bem curiosa no quarto saber o que me esperava por lá. A minha raiva passou no mesmo instante. Na cama estavam todas as cartas e e-mails impressos que eu escrevi para ele, alguns papéis já bem amarelados pela ação do tempo. Para minha surpresa, no meio das minhas palavras, estava a minha blusa de lacinho e peças íntimas que eu usava e ele sempre sequestrava. Fiquei mais confusa ainda:
-Vamos, me explique! Por que estás com tanta raiva de mim e ao mesmo queres que eu vista isso?
-Quero que vista porque preciso matar essa saudade absurda que sinto e o motivo da minha raiva é porque você duvidou de mim e durante todos esses anos, nunca te dei razões para desconfianças. Sou incapaz de jogar tua blusa fora, ela é sua! Apenas tomo conta dela. Outra coisa: suas palavras são importantes pra mim, não tenho coragem de me desfazer das suas cartas e e-mails. Achei uma injustiça sem tamanho, o fato de dar tanto valor às suas palavras, e por fim, você escrever em nosso diário e não me dar o prazer dessa leitura. Sempre te cobrei cartas e você sabe disso. Estão todas aí, pode conferir. Se você quisesse, poderíamos até fazer um livro de todo esse material que construímos com a nossa relação.
-De maneira alguma! Enlouqueceu?! Só quem pode ler isto somos nós dois. Eu não posso pegar esse tipo de linguagem que uso somente contigo e publicar em um livro. É muito íntimo.
-Como não pode publicar? São belas cartas!
Continuou com um tom malicioso na voz:
-E excitantes também...
-Ahhhhh... Não tem nem graça! Meu lindo, quem faz propaganda quer vender. Se eu divulgo por aí o que tu és capaz de fazer, perco meu sossego!
-Não sei que insegurança é essa agora. No nosso diário, você não fala somente sobre mim, fala muito sobre você também e de uma maneira muito original. Os riscos seriam proporcionais.
-Tá vendo? Sem querer você acabou concordando comigo, não dá certo!
-Vamos, me dê o último texto que você escreveu, estou ansioso...
Mostrei. Ele leu sem pausas. Depois me disse:
-Belíssimo e apaixonante! Mas devo discordar de você em um ponto: não concordo que este seja o capítulo final. Seria uma injustiça comigo. Até porque eu vim com gosto de gás, cheio de propostas para você e te quero na minha vida a todo o custo. Trouxe sua blusa e alguns apetrechos, para agora mesmo, escrevermos mais um capítulo nesse diário. Vim tirar o ponto final e colocar reticências. Sou um grande incentivador seu. Acredito que algum dia eu consiga te convencer a escrever um livro e quero que me prometa que vai colocar este conto da blusa de lacinho nele.
-Não sei se algum dia escreverei um livro. Acho isso uma possibilidade muito remota. Caso você realmente tenha a competência de me convencer, poderei perfeitamente publicar o nosso conto, mas não dessa maneira que você acabou de ler.
-Como assim?
-Já expliquei a razão. Este conto foi escrito com uma linguagem nossa, íntima. Não cabe aos olhos de mais ninguém. Te prometo publicá-lo, mas ele sofrerá alterações e teu nome não será divulgado para que eu possa dormir tranquila.
-Você está sendo injusta comigo, minha linda...
-Por quê?
-Conheço teus contos, tuas cartas, teus e-mails, tuas crônicas, enfim... Conheço tuas palavras! Convivo com elas há tempos. Sei que ao escrever sobre alguém, você divulga o nome e ainda coloca a foto do cidadão. Por que comigo tem que ser diferente? Quero no nosso conto a nossa foto e os nossos nomes.
-Vamos fazer um trato, então? Na nossa foto, eu aparecerei vestida com a blusa de lacinho, ok?
-Mas de jeito nenhum! Já disse: Vocês duas são privilégios meus. Deixo não!
-Ok! Tenho então outra proposta: eu te publico com nome, foto e tudo o mais e em troca você me devolve a minha blusa.
-Me deixe no anonimato! Prefiro!
É, essa confusão foi muito longa, prometi para ele que publicaria o conto da blusa de lacinho, com as devidas alterações, mas até hoje discutimos muito a questão da publicação desse diário a dois. Ele queria que o diário fosse publicado na versão original, mas essa coragem eu não tenho. Justifico sempre com muita honestidade que não são palavras públicas, são únicas! Palavras minhas para ele e isso deve bastar. O conto da blusa de lacinho, não foi o fim do nosso diário, ainda escrevemos muitos capítulos tendo a blusa como marca registrada de uma relação.
A distância mais uma vez imperou e nos perdemos, ou nos demos um tempo, não tenho certeza quanto a isso, mas uma coisa é certa: Desde o dia que ele roubou minha blusa, fiquei impossibilitada de fazer a infalível chantagem, mas descobri no meu texto outro ponto fraco dele. Quando a saudade bate, eu ligo e digo:
-Acabei de escrever o capítulo final para o nosso diário a dois!
-Não! Tire este intruso ponto final! Nossa história deve ser escrita com reticências.
Pensando nessa possibilidade, ele pega o carro, chega rapidinho em minha terrinha e diz:
-Minha linda, não me teste! Sou seu! Entenda que você não precisa fazer nenhum esforço para me ganhar. Você me acorrenta até mesmo com suas palavras, não use “a infalível chantagem do último capítulo” no nosso diário inconcluso, eu absurdamente te amo!
 Ele chegou ao ponto de me prometer:
-Sei que escreverás um livro algum dia. Sei também que mesmo com as devidas alterações, você publicará o conto da blusa de lacinho nele, porque você me prometeu isso. Saiba que a distância não me impede de te procurar. Te sigo em todas as redes sociais, sei dos seus passos, saberei também a data do lançamento do seu livro, não duvide disso. Te previno desde já: Cuidado! Eu estarei lá. Teus amigos correrão o risco de ficarem sem seu autógrafo. Não sei se vou conseguir te observar de longe, talvez eu te pegue pelo braço e suma com você. Enquanto eles querem um autógrafo, eu quero a escritora.
-Não precisa fazer uma chantagem dessas. A escritora é toda tua e te promete que depois dos autógrafos vestirá para você a blusa de lacinho, e irá satisfazer suas doces vontades. Digo mais, a mesma caneta utilizada para os autógrafos será usada para escrever em teu corpo algumas palavras que só devem ser lidas por você e por fim, eu te autografarei! Esta é a prova que a escritora é tua, outra pessoa não teve e não terá um autógrafo meu pelo corpo...
-Poxa, fiquei curioso! Em que parte do meu corpo você deixará seu autógrafo?
-Pode escolher.
Essa questão desse autógrafo íntimo acabou sendo motivação para mais um capítulo do nosso diário e depois desse namorado descobri que não preciso abusar da sensualidade das roupas femininas para magnetizar o desejo dos homens, posso fazer o bom uso da simplicidade e do recato em meu vestuário. Para amarrar significativamente um homem basta utilizar (e cumprir) as palavras. Os textos do diário a dois mostrou-se mais eficiente que todas as minhas armas de sedução, incluindo a infalível chantagem da blusa de lacinho...


(Para meu nobre amigo e poeta: Zé Ripe)

quarta-feira, 4 de maio de 2016

LUA DE MEL NO RIO DE JANEIRO



            Meus pais idealizaram passar uma “romântica” lua de mel no Rio de Janeiro. Uma parte da minha família paterna mora por lá, então ficou decidido que eles não teriam despesas com hotel. Carmem, uma prima nossa, fez a seguinte proposta para meu pai:
            -Fred, vocês poderiam ficar naquele meu apartamento que está desocupado.
          Esse apartamento tem uma história que não pode passar em branco. Minha prima morava nele e certa noite seus filhos quando se preparavam para dormir, observaram uma pequena faísca que saía da instalação da lâmpada do quarto. Em fração de segundos, o apartamento pegou fogo. Os bombeiros chegaram imediatamente ao local, mas não conseguiram controlar as chamas. Foi tudo muito rápido. Esse incêndio ficou famoso na época, foi noticiado em rádios e jornais, porque em meio a essa destruição, quase tudo no apartamento havia sido queimado, menos a Bíblia.
            Depois do incêndio, nossa prima foi morar em outro apartamento e refez sua vida por lá. O apartamento incendiado foi lavado, porém precisava passar por uma pintura, suas paredes eram puro carvão. Mas foi justamente para lá que meus pais foram passar a tão sonhada lua de mel: nesse “apartamento assustador”.
            Carmem disse o seguinte:
-Já que vieram passar a lua de mel aqui no Rio, nada mais justo que comemoremos com uma festa de casamento aqui também.
Ela resolveu improvisar esta festa para eles. Carmem era viúva de um alpinista e ainda tinha guardado o seu vestido de noiva. Mandou para a lavanderia e o mesmo voltou novo! Mas tinha um detalhe que não passava despercebido por ninguém: o vestido era roxo! Como era de se imaginar, o sapato, idem. O vestido serviu perfeitamente em minha mãe, mas o sapato, não. Então ela teve que usar o próprio sapato que era vermelho. Veja que "combinação": vestido de noiva roxo com salto alto vermelho. A roupa que o alpinista usou no casamento (que também era roxa, obviamente), não serviu no meu pai. Mas como essa festa tinha que sair, ele usou sua camisa amarela com bolinhas pretas e calça jeans.
E o fotógrafo? Tinha que ter um para registrar todo esse “desfile de moda”, não é mesmo? Segundo Carmem, isso era o mínimo, ela organizou tudo! Chamou um amigo que chegou ao evento com uma máquina extremamente potente de fotografar amebas (ele era fotógrafo de laboratórios)! Doces e salgados foram encomendados e após a festa, o casal 20 passeava naturalmente pelos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro, ainda com os trajes do casamento. Foram a sensação do Rio naquela noite, acredito que chamaram mais atenção que Elke Maravilha e o cantor Falcão juntos. As pessoas na rua não somente olhavam, como pediam para tirarem fotos com meus pais. E o pior é que eles aceitavam (ainda bem que naquela época não haviam inventado o Facebook).
Depois da comemoração, foram para o apartamento para enfim desfrutarem a “lua de mel incendiada”.
No outro dia, Carmem muito receptiva, convidou meus pais para conhecerem a famosa “Casa do Samba”. Eles aceitaram. A Casa do Samba era como uma boate de luxo e tinham alguns shows, algo muito chique mesmo. Ao chegarem lá, Carmem tentou advertir  minha mãe:
-Keyla, é melhor você ficar com Fred ali no canto da parede, porque quando as sambistas começarem seus shows, elas praticamente atacam os homens e os puxam para dançar de uma maneira que eles não conseguem se esquivar.
Minha mãe achou que aquilo fosse uma “piadinha” de Carmem e deixou meu pai lá todo soltinho...
Um “detalhe” interessante, foi que meus pais estavam justamente sentados próximos à escada que as mulatas desceriam sambando. Com pouco tempo, a batucada começou e as dançarinas começaram a descer a escada completamente nuas! A única coisa que cobriam seus corpos eram uns brilhinhos, algo muito parecido com a caracterização da famosa “Globeleza”. Segundo minha mãe, era cada mulherão...
Meu pai, coitado, tentava disfarçar os olhares, mas ele estava bem no alvo das dançarinas. Sentado estava, sentado permaneceu. Não demorou para uma bela mulata vir se esfregar nele. Com o perdão da palavra, ela sambava requebrando a bunda nos ombros dele, e naquele momento, acredito que ele sentiu na pele o que sente um bipolar: estava feliz com o show de samba da mulata visto tão de perto e ao mesmo tempo triste com os beliscões que minha mãe dava nele. A mulata o chamou para dançar, ele ficou naquela indecisão...
Tudo indica que os beliscões foram mais fortes que a vontade de aceitar o convite da mulata, porque da cadeira ele não se levantou. Com a recusa de meu pai, a mulata com muita naturalidade, sentou-se no colo dele e continuou dançando. Imagino a cara de “satisfação” da minha mãe e a “bipolaridade” do meu pai. Os beliscões intensificaram-se.
Quando uma mulata se engraçava de algum homem, o fotógrafo da Casa do Samba, automaticamente disparava incontáveis flashes e em pouquíssimo tempo já estavam com as fotos prontinhas para venderem ao cliente (nesse caso, meu pai). Minha mãe, nada satisfeita, perguntou:
-Fred, você vai comprar isso?
Com um sorriso pra lá de amarelo, ele argumentava:
-É, né...?! O fotógrafo vive disso, não é mesmo, Keyla? Não posso fazer essa desfeita com o coitado...
Comprou! Ainda não sei como ele teve tamanha coragem, porque nessa época ele já conhecia bem a minha mãe. Quando eles voltaram para o apartamento incendiado, minha mãe, bastante enfurecida e cheia de argumentos bombásticos,“botou fogo” no apartamento pela segunda vez! Ele falava:
-Não acredito que você está com raiva só por causa dessa besteirinha!
-Besteirinha? Você ficou zarolho olhando para a bunda da sambista, achou pouco, comprou a foto e ainda trouxe pra casa! Faz uma desfeita desse tamanho na nossa lua de mel e ainda vem me dizer que tudo isso é uma besteirinha?
-Tá bom! Eu vou rasgar essa foto para acabar com esta confusão!
Mas ele foi muito cauteloso no exercício dessa tarefa: rasgou de uma maneira bem demorada. Depois que a foto estava toda picotada, ele pegou todo aquele monte de pedacinhos e mostrou à minha mãe justificando-se:
-Pronto Keyla, rasguei a foto! Agora você não tem mais razão para discutir comigo.
Tudo ficaria bem se não fosse por um detalhe...
Quando minha mãe pegou a foto toda picotada, de imediato percebeu que a bunda da sambista estava intacta! Sem nenhum recorte, essa imagem ele preservou.

Minha mãe botou fogo no apartamento pela terceira vez e adeus lua de mel!  

A INFALÍVEL CHANTAGEM DA BLUSA DE LACINHO

         Eu tinha uma blusa muito sexy, ela era o sonho das minhas amigas e provocava nos homens os desejos mais absurdos. Tentarei descrevê-la: tinha pouco pano, a barriga e os ombros ficavam completamente nus. Nas costas havia apenas um lacinho, bem tentador por sinal. Um dia desses, eu estava de bobeira em casa, quando meu telefone tocou, era uma amiga das antigas e já fazia um tempo considerável que não nos víamos. Ela veio cheia de argumentos, querendo me convencer:
          -Estou indo para a tua terrinha, vamos sair?
          -Sair? Qual será o destino?
-Uma festa!
-Quem vai?
-Eu e meu noivo, meu irmão e a noiva.
Demorei um pouco para dar a resposta, depois falei:
-Ah, que situação mais linda! Só faltou você me dizer o seguinte: “Somos dois casais e você será o nosso castiçal!”. Vou não! E tem mais: não sou chegada a festa de rua, prefiro um lance mais privado.
Acontece que esse quarteto me queria na festa e passaram o dia me telefonando. Usaram todo o tipo de chantagem possível e imaginável, argumentaram que eu não seria a vela da noite, que me respeitariam, não ficariam com agarrações na minha frente e coisa e tal... e tal e coisa (como diria Rita Lee). Eu só sei que conseguiram me convencer. Como fazia um bom tempo que eu não saía de casa, caprichei na produção, fiz uma maquiagem legal, dei um grau no cabelo e achei de colocar a sexy blusa de lacinho. Ao atravessar a sala da minha casa, minha irmã me alfinetou:
-Vai nua para a festa?
-Ora, quanto exagero!
-Sei não, viu?! Você vai chamar a atenção de homem, mulher, menino e cachorro.
-Dispenso tamanha atenção! Você é muito exagerada, até parece Cazuza falando.
-Tá bom! Se não trocar a blusa, será atacada no meio da rua. Não te digo mais nada...
-Duvido muito! Tchauzinho!
E lá fui eu rumo à festa. Na minha caminhada, percebi uns olhares “estranhos”, pensei em voltar pra casa e trocar a blusa, mas eu estava em cima da hora. Cheguei na festa e o quarteto que me esperava, antes mesmo do boa noite, começou a me provocar. Uma das amigas falou:
-Esqueceu a blusa em casa?
A outra respondeu:
-Não! Ela resolveu vir com o sutiã do biquíni!
Comecei a minha defesa:
-Meninas, por favor! Já basta o sermão da minha irmã.
As amigas olharam um pouco mais para a blusa e começaram a mudar de opinião:
-Ei, eu quero esta blusa emprestada! Vou mandar uma costureira fazer uma igualzinha pra mim...
O noivo começou a sair do sério: “Não senhora! Não deixo você usar uma blusa dessas!”.
Depois de um tempo, a blusa deixou de ser o centro das atenções e começamos a curtir a festa. Comecei a exercer o meu papel de castiçal (como já havia imaginado). Eles se beijavam e eu beijava romanticamente uma latinha de refrigerante. Começaram a dançar. Minhas velas eram poucas para tanto romance. Me sugeriram:
-Por que você não dança?
-Ah, vocês sabem que eu não danço em público.
          Sou cismada com esse assunto. Quando começo a dançar, as pessoas começam a olhar e eu fico com uma dúvida cruel: “Será que estou arrasando ou palhaçando?”. Na dúvida é melhor não ultrapassar. Fiquei quietinha, bem quietinha mesmo. O papo fluía bem entre os amigos e eu desempenhava meu papel de castiçal com maestria. De repente, senti aquele puxavante brusco no meu braço direito, foi um lance tão estratégico que até hoje fico sem entender como foi aquilo. Eu só sei que rodei como num passo de tango e rapidamente estava imobilizada. O parceiro do tango me beijou! A vontade inicial foi de dar um soco, mas meus braços não podiam se mover. O segundo pensamento foi dar uma mordida, mas não pude. Não era um menino, era um homem e um daqueles bem experientes, foi um beijão!
Quando o beijo acabou, olhei para ele e arquitetei uma bronca daquelas, mas olhei direitinho...
O camarada era um deus grego! Eu sei que beleza não põe mesa, mas abriu o meu apetite. Com medo de ser nocauteado, continuou me imobilizando e falou:
-Não reclame! Eu sei que você gostou!
-Quanta ousadia! Você me rouba um beijo e ainda sai com uma dessas?
-Mas eu sei que você gostou! Eu imobilizei seus braços, mas a sua boca estava livre e correspondeu tão bem aos meus estímulos...
-Mas eu não gostei! Sabe por quê? Porque você tomou o que era meu sem permissão. Então, por direito, posso pegar de volta.
 Dei um beijão nele!
Ele sorriu, e só então sentiu-se seguro para me soltar. Disse:
-Fique aí! Eu volto já, vou sair apenas para pegar uma cerveja.
Olhei espantada para o meu quarteto amigo, que me olhava com igual espanto e falei:
-Vocês viram isso?
As meninas soltaram os noivos e cochicharam ao meu ouvido coisas do tipo:
-Menina de sorte! Que homem lindo!
-Ah e vocês não sabem: Que beijo!
Pensei até que ele não fosse voltar, mas em pouco tempo o danado estava de volta e sussurrando, me disse:
-Voltei!
-Percebi. Sim, já que você tomou a ousadia de me beijar, será que poderia ao menos me falar seu nome?
Nos apresentamos. Continuei o papo:
-Outra coisa: De que planeta você caiu? Eu tenho certeza que da minha terrinha você não é.
-Realmente não sou daqui, mas não moro longe, sou do planeta Terra.
-Mais uma coisa: Custava nada você vir falar comigo da maneira tradicional, vir me conhecer civilizadamente, perguntar meu nome e coisa e tal...?
-Menina, você teve sorte de eu ter apenas te roubado um beijo, porque a minha vontade era de puxar este lacinho para poder ver a única parte do teu corpo que sua blusa está escondendo.
-E você teve sorte porque teu beijo te salvou. Se você não beijasse tão bem, teria levado um murro bem certeiro. Mas se você tivesse puxado o meu lacinho, a reação para tua ação seria uma voadora, seguida de uma gravata, até você cair desmaiado.
Depois de toda essa “carinhosa apresentação” passamos uma noite inteira de roubos e devoluções. Nessa mesma noite, ele pegou em minha mão e saiu me arrastando.
-Vamos para onde?
-Vou te apresentar à minha família. Você me disse que prefere as coisas tradicionais, não foi? Eu quero que você seja minha namorada, então vou te apresentar a minha família, agora!
Com essa determinação tamanha, começamos a namorar. Na hora da despedida, ele me fez mais um pedido:
-Veja bem, eu já disse que não sou da sua terrinha. Preciso voltar para minha casa. Só poderei voltar pra cá no fim de semana e amanhã não estarei na festa. Seria pedir muito que você guardasse sua blusa de lacinho para usar somente comigo?
Respondi cantarolando Caetano Veloso: “Então tá combinado, é quase nada...”
Nos fins de semana, ele sempre estava na minha terrinha, mas durante a semana ele me surpreendia com telefonemas no meio da madrugada. Eu me fazia de doida e atendia aos telefonemas com uma seriedade incrível:
-Aconteceu alguma emergência para você me ligar uma hora dessas?
-Sim! Eu estou morrendo de saudades de você!
-Ah, isso é bom! Pegue o carro e venha pra cá.
-Não posso! Vou trabalhar amanhã cedinho...
-Então me ligou pra quê?
-Vamos namorar?
-Surtou? Já sou sua namorada, esqueceu disso, foi?!
-Não esqueci, eu sei que você é minha, mas eu quero namorar por telefone, agora!
-Sei...
-Vamos?!
-Quer começar por onde?
-Comece você, te dou esta honra.
Eu comecei a colocar a criatividade para funcionar, falei um montão de coisas, sempre tive a imaginação muito fértil. Mas ele estava tão caladinho que por um momento achei que a ligação tivesse caído:
-Alôôôô?! Alguém por aí?
Quase sem voz e bem pausadamente, ele falou:
-Estou aqui, te escutando, continue! Eu estou quase lá...
-Como? Você está quase lá? Mas eu não quero que você chegue lá, quero que chegue aqui, bem juntinho a mim, para chegarmos juntos. Então, meu lindo, tenho que te informar: Câmbio e desligo!
Desliguei. O camarada insistiu, insistiu, insistiu, até cansar. Resolveu utilizar um último recurso: Passou uma mensagem para meu celular que dizia assim: “Minha linda, você já alcançou o seu objetivo, já me deixou louco, estou fissurado em você, mas não me deixe nessa situação! Eu prometo que chego aí na sexta, saio do trabalho direto para sua casa, faço o que você quiser, mas atenda esse telefone, por favor!”
Resolvi dar uma colher-de-chá e atendi com a mesma naturalidade que atendi da primeira vez:
-Em que posso ser útil?
-Minha linda, eu estou doido! Termine o que começou, por favor...
Dei continuidade à minha imaginação. Quando eu percebia que ele estava quase “chegando lá”, eu saía com uma piada, ele caía na gargalhada e algumas vezes, bastante incrédulo, ele perguntava:
-Você teria coragem mesmo?
-Não aposte porque eu ganho!
O nosso namoro era assim bem criativo, as vezes eu pensava que ia colocá-lo na parede, mas ele acabava me colocando. Eu buscava revanche e quando ele achava que estava ganhando eu dava um xeque-mate muito bem dado.  Quando a saudade batia, confesso que pegava pesado. Eu ligava no meio da semana e falava naturalmente:
-Meu lindo, vai ter uma festinha por aqui, vamos?
-Não posso, vou trabalhar cedinho.
-Que pena! Eu já estou pronta, com blusa de lacinho e tudo o mais...
Ele enlouquecia:
-Isso é golpe baixo! Você sozinha na festa já é um perigo grande. Acha pouco e veste a minha blusa de lacinho?
-Sua blusa? Pensei que a blusa fosse minha! Não consigo imaginar um homem com quase dois metros de altura vestido com uma blusa de lacinho.
-Deixe de onda! Nós combinamos que você só usaria esta blusa comigo!
-Pois bem, eu vesti para sair com você, estou te chamando, isto prova que eu me vesti para você. Se não quiser que eu saia sozinha, pegue o carro e venha!
Eu estava apenas brincando com o desejo dele. Não havia festa e eu não estava arrumada. Me surpreendi quando o vi passando pelo meu portão, não imaginava que viesse, ele realmente tinha que trabalhar bem cedinho. Mas eu gostei! Eu estava deitada na rede, me levantei, marquei carreira e pulei no pescoço dele. Eu o deixei confuso, ficou sem saber se reclamava ou me beijava. Depois do beijo ele disse:
-Sua maluca! Como é que você me faz uma chantagem desse tamanho?
-Mas eu estava brincando! Eu pensei que você não viesse.
-Eu fiquei imaginando você sem mim na festa, com a blusa de lacinho, totalmente indefesa, um montão de homens fortes, que poderiam usar a minha tática...
-Criatura, outro homem não roubaria um beijo meu porque eu não deixaria. Eu sou tua, somente tua, com ou sem blusa de lacinho. Outra coisa, não sou indefesa, já me esquivei de vários beijos. Contigo foi diferente porque você domina esta técnica e acabou sendo a exceção das minhas regras.
Em um abraço apertado (essa era a característica marcante dele), me perguntou:
-Minha linda, cadê sua blusa de lacinho?
-Pra quê?
-Saudades dela.
-Me decepcionei agora. Eu pensei que você estivesse com saudades de mim.
-Sinto saudades das duas.
Quando eu dei a blusa pra ele, a surpresa: ele a trancou no carro! Questionei:
-Que mutreta é essa?
-Seguro morreu de velho! É muito melhor prevenir do que remediar. Você sozinha já é um perigo e com esta blusa, é irresistível. Devo cuidar do que é meu. Só te devolvo a blusa se algum dia nosso namoro acabar, enquanto isso, eu faço questão de tomar conta dela.
A partir do momento que ele ficou com a minha blusa, eu não pude mais fazer a “infalível chantagem da blusa de lacinho” e perdi um pouco do meu charme...
A distância acabou com o nosso namoro, mas a amizade impera até hoje e sempre que conversamos, pergunto:
-Cadê a minha blusa?
-Está comigo, muito bem guardada e não te devolvo. Ainda tenho esperanças de retomarmos o nosso romance. Tenho plena consciência que caso eu te devolva e você resolva usá-la, te perco de vez! Já que não posso ter as duas, fico com a blusa. Vocês duas são privilégios meus. Outro homem não terá o prestígio de te ver vestida nela. 

A blusa de lacinho entrou para a minha história e esta foi a primeira e única vez que tive uma blusa roubada por um namorado.

domingo, 1 de maio de 2016

SUÍTE 310

Ao acordar, Maciel perguntou-me se eu gostaria de caminhar pela praia à tarde. Topei de imediato, pois eu sabia que este programa estava longe de ser uma simples caminhada, ele sempre acaba aprontando algo e eu adoro isso. Logo depois do almoço, entramos no carro e começamos a procurar uma praia desconhecida para explorarmos. De acordo com as nossas estimativas, caminhamos quilômetros.
Bem no meio desse trajeto, tinha um hotel, mas não era um simples hotel... Paramos! Aquela imponente construção chamou imediatamente a nossa atenção pelas condições que se encontrava: Total abandono! Um prédio muito grande, três piscinas de luxo, estátuas destruídas e jardins devastados. Algo impressionante. Maciel ficou perplexo e eu ultrapassei esse estágio. O hotel havia sido depredado e visivelmente saqueado. Pias e torneiras arrancadas, fiações elétricas roubadas aos montes. As piscinas não possuíam mais nenhum azulejo, até eles foram roubados!
Impulsivamente, Maciel me puxava cada vez mais para dentro daquele hotel. Ele tinha em mente observar a estrutura do prédio, porque vive construindo casas e constantemente fotografa lugares que possam servir de modelo para uma de suas casas. Sempre que estou com ele, eu assumo esse papel de fotógrafa. Nessa tarde não foi diferente, registrei tudo o que achei proveitoso para ele. Olhamos tudo. A suíte 310 me chamou atenção, mais do que as demais, embora todas elas fossem exatamente iguais. O encantamento se deu pela localização, o banheiro dessa suíte ficava de frente para o mar. Eu nunca tive a oportunidade de morar em uma casa que fosse de frente para o mar e de repente me vejo em um banheiro, o lugar quase sempre menos privilegiado de qualquer casa ou hotel, que tinha uma maravilhosa vista para o mar. Senti-me pequena perante a vida. Tive um pensamento ridículo: “Um banheiro de grã-fino é mais privilegiado em termo de visão do que a minha própria casa?”. Aquela vista não saía de mim.
Excetuando esse encantamento, o restante do hotel causava muito medo. Escuro, frio, muitos morcegos, parecia cenário de filme de terror. A impressão que tive, era de que a qualquer momento apareceria um drogado ou maníaco. O medo estava claramente estampado em meu rosto. Uma sensação estranha, nunca sentida antes. Se eu estivesse sozinha, não teria coragem de adentrar ali jamais, mas Maciel estava comigo e isso me estimulava. Por um momento, olhei para ele e tive muita vontade de propor algo, mas desisti. Estava escurecendo.
No caminho de volta, conversávamos sobre a situação daquele hotel e eu me perguntava incansavelmente: “Como um hotel tão imperioso ficou daquele jeito?”. Quando chegamos em casa, tomamos banho, jantamos e deitamos. Foi na minha cama que veio a seguinte confissão:
-Sabe, amor, eu tive uma vontade absurda de fazer amor ali naquele hotel em ruínas.
-É sério isso?
-Muito sério. Ainda pensei em te propor isso, mas desisti porque estava escurecendo.
-Não precisava nem gastar suas palavras para me propor algo. Bastava apenas tirar sua roupa. Eu entenderia.
-Tive medo que entrasse alguém ali. Alguém disposto a fazer o mal.
-Essa parte aí você deixou transparecer. Eu vi o pavor em teu rosto, menina. Não imaginei que você estivesse com segundas intenções.
-Não consigo lembrar de um dia que eu tenha sentido mais desejo do que hoje. Você promete me levar lá novamente?
-Você sabe que preciso viajar bem cedinho amanhã, mas eu prometo te levar lá na próxima vez que vier para tua casa.
Nesse momento ele me abraçou fortemente e disse: “Você não tem juízo, menina...”.
Passamos um mês longe e durante esse tempo, apimentava minhas mensagens com cobranças do tipo: “Não demore! Preciso te sentir naquele hotel em ruínas!”. Isso caía como uma bomba nele, as respostas eram tentadoras e minha expectativa só crescia.
Numa determinada noite, cansada depois de um dia de trabalho, recebi dele essa mensagem enquanto eu já me preparava para dormir: “Chegarei amanhã para te levar no nosso hotel. Me espere! Se prepare! Vou satisfazer sua louca fantasia, garota maluca!”. Quase não consegui dormir! No dia seguinte, ele chegou, coloquei o meu biquíni, uma canga e partimos para o nosso prazeroso hotel. O relógio marcava 16h00 quando descemos do carro. O acesso não estava fácil. Tinha um banhista solitário que se posicionava bem em frente ao hotel e via claramente toda a nossa movimentação. O hotel ao lado estava em reforma e o pedreiro também tinha notado a nossa presença.
Bem, eu estava determinada. Eu queria satisfazer alguns desejos ali dentro e eu não sairia enquanto não conseguisse isso. Já havia esperado um longo mês por esse momento. Não tive dúvidas, dei uma de turista, peguei o meu celular e fiquei tirando fotos, para dar a entender que estava apenas fotografando um velho e abandonado hotel. Quando tudo parecia ter caído na normalidade e nós deixamos de ser objetos da curiosidade alheia, eu me assustei ao ver que do hotel saía um homem com um facão na mão: o vigilante!
-Macieeeel!!!! Tem um vigia lá!!!!
-Calma! Você me quer lá dentro, não quer? Eu te prometi isso. Vamos conseguir. Aja naturalmente. Continue batendo suas fotos e ignore completamente a presença daquele vigia.
Maciel apressou o passo e chamou o vigilante. O meu coração acelerou, as pernas tremeram e eu só tinha vontade de perguntar: “Você enlouqueceu?”. Na minha cabeça só passava a ideia que ele compraria de alguma maneira aquele camarada, que ofereceria algum dinheiro ou algo parecido. Eu olhava para aquele homem com um facão na mão e tinha muito medo, mas curiosamente, eu não tinha vontade de voltar para casa. Queria ir para a suíte 310. Mas como? Meus pensamentos estavam velozes em busca de uma solução e sabia que o mesmo acontecia com Maciel.
Maciel, com a maior naturalidade que se possa imaginar, chamou o vigilante, o convidou para sentar e começou a conversar sobre o estado de abandono que estava aquele hotel. Esse papo era um bom começo, mas eu sabia que ainda não era o suficiente para que tivéssemos a entrada permitida. Então, eu comecei a colocar a minha imaginação para funcionar e saí com essa conversa para o vigilante:
-É verdadeiramente impressionante o estado desse hotel. Já nos hospedamos aqui, no período de alta estação, ele estava lotado e cheio de vida. Hoje, ao passar por aqui depois de anos, fiquei perplexa com o que vejo agora.  
-É moça, hoje eu sou vigilante, mas eu trabalhava como garçom por aqui enquanto ele estava em plena atividade. Ainda não me acostumei, ainda me impressiono. Sinto saudade daquela época.
-Será que você permite que eu reviva os momentos que tive por aqui? Será que me deixaria olhar esse hotel por dentro?
-Claro! Fique à vontade.
Eu sabia que ele ficaria nos seguindo, isso era esperado, mas eu estava tomando o tempo dele. Sabia que ele teria que ir embora mais cedo ou mais tarde. E comecei a colher “singelas” informações que me diriam muito sobre a maneira de como eu deveria proceder para que aquele vigilante não desconfiasse que eu estava querendo alguns momentos íntimos no hotel que ele era pago para guardar. Continuei o papo:
-Ao chegar aqui não imaginei que tivesse um vigilante. Vi um abandono tão grande...
-É porque faz oito meses que não me pagam, então eu venho uma vez perdida. Já coloquei inclusive os sócios desse hotel na Justiça.
-Então você não passa à noite por aqui?
-Não! Fico somente até o finalzinho da tarde e depois vou para casa.
Bem, a tarde já estava findando. Comecei a me animar. Ele pareceu gostar da nossa companhia e ficou o tempo inteiro contando histórias antigas sobre o hotel e mostrando algumas suítes. Com pouco tempo, o telefone dele tocou. Acredito intimamente que era uma namorada, ele estava muito sorridente e dizia o tempo inteiro: “Chego já!”. Bingo! Essa mulher caiu do céu. Os ventos sopravam positivamente. Eu sabia que depois do telefonema ele havia ficado muito empolgado para ir para casa. Então, essa foi para mim a hora do xeque-mate. Ele ia sair, mas eu precisava pensar rápido e ter um bom motivo para dar para ele e poder permanecer naquele hotel após a sua saída. Então:
-Amigo, muito obrigada pela tua atenção. Percebi pelo teor do telefonema que alguém te espera. Não se atrase por nossa causa. Eu gostaria apenas de pedir tua autorização para visitar uma suíte, a 310. Foi nela que nos hospedamos na última vez que estivemos aqui. Você permite? Seremos rápidos, apenas o tempo de algumas fotos. Quero uma lembrança daqui.
-Ah, claro! A suíte 310 fica no final desse corredor, podem ficar à vontade. Mas adianto que ela está suja, vocês estão vendo que o hotel está abandonado, né?
-Sei perfeitamente onde fica essa suíte e não se preocupe. Não iremos demorar, como já falei, é apenas o tempo de umas fotos para guardar como lembrança. Será que existe na suíte 310 algo singelo que eu possa levar para mim para que de vez em quando eu possa provar para mim mesma que estive aqui?
-Acho que não. Esse hotel já foi completamente saqueado. Ah, espera um pouco! Tem um quadro que eu guardei aqui na recepção. Veja se gosta, se gostar, é seu.
-É lindo!
-Pode levar como lembrança então.
-Obrigada! Mas eu queria mesmo era algo lá da suíte 310.
-Se encontrar algo que te agrade, pode levar.
-Ei, sabia que eu sou escritora? Vou escrever sobre a história desse hotel, vou fazer de você um personagem e vou publicar tudo isso em meu próximo livro.
Ele saiu radiante de felicidade. Acreditou na minha conversa. Peguei o quadro, encostei-o na parede e enquanto o vigilante tomava o rumo de casa, eu corria com Maciel como dois adolescentes pelos corredores daquele hotel macabro. O desejo incalculável que eu sentia, deu lugar também para um medo grandioso. Embora eu nutrisse em mim a esperança de que tinha conquistado a confiança daquele homem, eu não parava de pensar nele. Imaginava aquele homem entrando com aquele facão na suíte 310 e cometendo atrocidades comigo. Foi uma sensação muito angustiante. Maciel sentia o mesmo, me confessou isso depois que saímos de lá, mas no momento em si, não demonstrou nada disso. Abriu com violência a porta da suíte. Me puxou com voracidade pelo braço e me arrastou para o banheiro. Me empurrou contra a janela e disse em tom de autoritário:
-É essa visão do mar que você quer, não é? Contemple-a!
-Amor, estou com medo! Ele sabe que estamos aqui!
-Calada! Faz um mês que você me provoca! Quer correr agora? Vai não!
Arrancou minha canga com gestos de mestre no assunto. O biquíni ele conseguiu rasgar. Nem se eu quisesse impedi-lo, não conseguiria. Fez o excelente uso da força masculina. Estava agressivo e cheio de desejo. Essa mistura provocou em mim uma sensação única. Gostei de cada primitivismo que aconteceu naquela suíte de hotel. O momento não era propício para preliminares demoradas, o medo castigava. Alcançamos o prazer em tempo recorde e de maneira intensa. Me vesti apressadamente, peguei a placa da suíte, de madeira, com o número 310, o quadro que ganhei do vigilante e saímos correndo daquele hotel repleto de energias. Ao chegar no carro, a queda da ficha. Maciel bombardeou-me demais:

-Você é louca! Você não tem um pingo de juízo! Isso é praticamente um suicídio, menina! Você reparou no tamanho do facão daquele cara? Você pensou na possibilidade de ele voltar? Sabe o que ele faria com você, não sabe? E depois, poderia até nos matar! Você é louca! Muito louca!