sexta-feira, 8 de julho de 2016

POETISA CIGANA



És um personagem do sonho acordado
mas nunca realizado
um amor forte como alcatrão
balanceado com mel e limão.

Nos seus olhos eu bem que vi
o poema que escreveu pra mim
nitidamente tuas verdades eu li
você sempre me amou, e fim!

Lá no meio do ocular poema
as entrelinhas das íris gritaram
que o tempo não é passado
ama num presente (di)lema.

E não duvide...
Sempre amará
porque deste homem 
é esse o lema!

Sabe-se que palavras ditas
o vento sempre leva
pela primeira janela
as escritas o tempo
por mais tempo conserva.

Mas quando os olhos falam
a eternidade as enjaulam
numa prisão perpétua
e sem trégua!

Como poetisa te digo
que não procure meu eu-lírico
ele está cansado
anda desesperado
e é muito devasso!

Se o encontrares
ele vai me denunciar
dizendo que nasci pra te amar.

Tenha calma
deixe estar
se tiver de ser tua
saberei como chegar:

De maneira surpreendente
e muito envolvente 
te passo uma rasteira
e de mim você não sai
mesmo que queira!

Sou poetisa que clama
mas também sou cigana
sempre diz isso quem me ama.
Se te levo à minha tenda...
Coitado, tenho até pena!

Te jogo um íntimo feitiço
deixo logo sob aviso
que você vai bater no peito
e me dizer convicto:
"Mulher, virei cigano
e é contigo que eu fico!"

quarta-feira, 29 de junho de 2016

BANCÁRIO OU ATIRADOR DE BANCOS?



            Meus pais sempre foram loucos por carnaval. Minha mãe principalmente. Em um carnaval desses, ela havia determinado não participar dessa festa, até receber um telefonema de uma tia minha que é outra foliã de peso da família. Ao desligar o telefone, ela disse para minha avó:
            -Mãe, vou ali volto já!
            Eu só sei que ela só voltou desse “ali” na quarta-feira de cinzas.
            Mas o carnaval em questão é “mais emocionante”. Nesse, ela já estava casada com o meu pai e os dois decidiram colocar uma barraca lá no Carmo, exatamente no foco do carnaval de Olinda. Dois casais tomariam conta dessa barraca, meus pais era um deles e o outro era Charles e Gal (companheiros de farras). A barraca estava organizada, tinha comes, bebes e contava também com um atendimento de primeira qualidade.
            Não é nada fácil tomar conta de uma barraca no carnaval de Olinda. Mesmo quem está vendendo, acaba aqui ou ali saltitando os passos do frevo e com toda essa performance, o trabalho se torna mais cansativo do que qualquer outro. O descanso também era bem administrado entre eles. Eu não sei por qual razão, os homens foram dormir na mesma hora e deixaram as respectivas esposas no trabalho pesado. Charles deitou em uma esteira próxima à barraca e meu pai dormiu em uma Kombi de um amigo nosso que também estava estacionada por perto.
            Vendo que a barraca estava sendo administrada por apenas duas belas jovens, um camarada que aparentava já ter tomado todas, chegou e ficou olhando para minha mãe. Prontamente ela o perguntou:
            -O que o senhor deseja?
            -Uma batida.
            -Certo! Dê uma olhadinha no nosso cardápio. Temos batidas de vários sabores.
        O camarada que chegou solitário, demonstrou não estar interessando em batida alguma, certamente, o objetivo dele era encontrar o famoso amor de carnaval. Respondeu para minha mãe sem nem ao menos olhar para o cardápio:
            -Quero uma batida que tenha o seu nome!
            Nesse exato momento, Charles acordou e ainda meio sonolento, percebeu o teor da provocação. Deu um pulo da esteira e gritou:
            -Fred, acorda Fred! Olha o engraçadinho cantando tua mulher!
          Meu pai nessa época trabalhava no Banco do Brasil, mas no carnaval de Olinda, nesse momento,sem pestanejar caracterizou-se de “atirador de bancos”. Ele levantou-se disposto, pegou o primeiro banco que viu pela frente e correu atrás do camarada para lhe acertar a cabeça. Ainda bem que o homem correu mais rápido e meu pai não conseguiu alcançá-lo. No outro dia, meu pai chegou à barraca primeiro que minha mãe. Ela ficou organizando algumas coisas em casa.  Preocupado com o assédio que minha mãe sofrera no dia anterior, ele ficou bastante pensativo na tentativa de buscar uma solução para controlar o assanhamento dos homens. Escreveu um bilhete e pediu que Charles o entregasse lá em casa. O pedaço de papel escrito dizia o seguinte: “Keyla: Venha de calça comprida e frouxa!”. Minha mãe, aproveitou o verso do bilhete e escreveu sua resposta: “Mande o dinheiro para eu comprar esta fantasia de palhaço!”
Ele ficou abusado! Não queria mais saber de descanso em Kombi e ficava o tempo todo servindo de guarda-costas para minha mãe (Kevin Costner perdeu feio para a atuação do meu pai nesse carnaval, em questão segurança). Nunca mais painho repetiu a ousadia de colocar uma barraca no carnaval de Olinda. Preferiu ficar trabalhando no Banco (do Brasil) a ser atirador de bancos. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

FREDÍSSIMO

Eu e painho.
Hoje é o aniversário do meu pai, o senhor Fred Beltrão, mas eu o parabenizo a cada respirar. Sou sua primeira filha e uma filha que foi muito desejada, vale ressaltar. Fez de mim uma criança muito feliz. Fui uma forte candidata a ser uma criatura insuportável, pois recebi não somente dele, mas de toda a família, muitos mimos (ainda recebo até hoje, rsrs). Tudo chegou para mim de uma maneira muito fácil. Não precisava espernear, bastava apenas dizer o que queria que em pouquíssimo tempo meu desejo era realizado.
Graças a Deus souberam me criar de maneira realista, foram me moldando para ser uma criatura sensata, pé no chão. Meus pais sempre me mostraram a realidade das coisas: “Te damos o que você quer porque podemos te dar, mas não sabemos nada sobre o amanhã. Talvez um dia não possamos satisfazer seus gostos e você terá que se conformar com isso. À mesa sempre têm as comidas que você gosta, mas se algum dia só tiver farinha e água, coma satisfeita e ainda agradeça a Deus, pois tem muita gente que vive dessa maneira. Seja humilde!”. Esses são alguns pequenos exemplos da educação que tive em casa.
Tive do meu pai uma cobrança escolar muito rigorosa. Ele era extremo, me preparava não somente para superar a média das notas, mas para ser a melhor da turma. Se eu chegasse com uma nota vermelha, não levantava a mão para me bater, ele nunca utilizou esse recurso, mas suas palavras faziam minhas lágrimas caírem de três em três. Me incentivava a escrever, muito. Dizia que dessa forma eu aprenderia de maneira mais eficiente os conteúdos passados pelos professores: “Não espere que seu professor anote algo no quadro, enquanto ele explica vá fazendo suas anotações no caderno, isso te dará agilidade na escrita e aumentará o potencial do seu raciocínio”.
Como qualquer criança, tive meus momentos de lazer. Me levava com frequência à pizzarias, shoppings, praias, parques. Enfrentou uma multidão comigo na “corcunda”, num show do grupo musical “Menudo”, porque esse era o meu sonho (eu tinha uns cinco anos nessa época). Minha mãe dizia:
-Fred, você é louco de levar Sylvinha para um evento desses? A casa de show estará lotada, com certeza! Vai levá-la mesmo assim?
-Vou! Ela quer ir, não quer?! Então ela vai!
 Foi até para um show da Xuxa (mesmo sem gostar), na Ilha do Retiro, para satisfazer meus caprichos. Me colocou num curso de inglês e se matriculou também, só para poder conversar comigo nesse idioma e saber se eu estava me dando bem nessa língua estrangeira.
Entretanto, ganhava dele passeios que muitas crianças nunca tiveram. Desde muito pequena, ele me levava semanalmente para bibliotecas e livrarias. A “Livro 7” (uma livraria que era um mundo de tão grande), era o meu passeio de todos os sábados. E ele saía de lá carregando uma sacola pesada dos livros que eu escolhia, porém, cheio de orgulho: “Tenho uma filha leitora!”. Se por um acaso eu quisesse algum livro que não tivesse disponível na Livro 7? Naquela época não tinha a facilidade disponibilizada pela internet de comprarmos um livro diante de um computador e depois de poucos dias recebermos em nossa casa. Painho corria tudo quanto era livraria, mas chegava com o livro e com um sorriso radiante. Eu estudava no colégio mais caro de Olinda e houve um momento que ele passou por um sério problema financeiro.
Isso foi capaz de bagunçar toda a sua vida, menos os meus estudos. Meu pai passou o ano inteiro acumulando as mensalidades do colégio, sem poder pagar, no final do ano foi lá negociar a dívida mais o valor da renovação da matrícula. Criou uma imensa bola de neve em débitos, contudo não cogitou a possibilidade de me transferir para uma escola de menor valor. Justificava que enquanto vida tivesse, poderia passar fome, mas me daria sempre a melhor educação escolar. Essa teimosia ele sempre teve e ninguém o convencia do contrário (nem convence, pois ele continua fazendo exatamente tudo do mesmo jeitinho com minhas duas irmãs).
O mundo deu suas mirabolantes voltas e eu pude mostrar para meu pai o quanto tudo isso foi muito válido. Sei o tamanho do orgulho que ele nutre por mim, hoje não sou apenas a leitora que ele citava tanto na minha época de infância, sou também escritora. Quando meu livro estava prontinho, ele foi comigo buscar lá na editora. Estava mais feliz que eu, muito emocionado. Uma cena impossível de ser esquecida. Painho me chama de “Talismã” e justifica a origem desse apelido dizendo que eu lhe trago sorte. Mas não sabe ele que essa “sorte” que lhe trago é reflexo do exemplo que ele sempre foi em minha vida. São poucos os homens que exercem o verdadeiro papel de pai. Sou extremamente feliz por poder bater no peito e falar com um orgulho danado: Meu pai está nesse meio!    
Painho, quero que entendas que seu “Talismã” foi feito e lapidado por você. Se você não tivesse me dado o seu brilho, eu seria um pedaço de pedra qualquer, sem valor algum. Muito obrigada, muito obrigada mesmo! Eu te amo imensamente. Seja feliz! Que os anjos do Senhor acampem ao teu redor e te protejam sempre. Estarei na tua torcida.


                                           Um beijão do teu talismã: Sylvinha.